segunda-feira, 6 de abril de 2009

Estava permanentemente ocupada em querer e não querer ser o que eu era, não me decidia por qual de mim, toda é que não podia ser; ter nascido era cheio de erros a corrigir. Só tinha tempo de crescer. O que eu fazia para todos os lados, com uma falta de graça que mais parecia o resultado de um erro de cálculo. Na minha pressa eu crescia sem saber pra onde.

- Clarice Lispector -

segunda-feira, 30 de março de 2009

Mais Clarice...

Amanheci em cólera. Não, não, o mundo não me agrada. A maioria das pessoas estão mortas e não sabem, ou estão vivas com charlatanismo. E o amor, em vez de dar, exige. E quem gosta de nós quer que sejamos alguma coisa de que eles precisam. Mentir dá remorso. E não mentir é um dom que o mundo não merece..."

- Clarice Lispector -

quarta-feira, 25 de março de 2009

Umas rendas...


De delicadezas me construo. Trabalho umas rendas
Uma casa de seda para uns olhos duros.
Pudesse livrar-me da maior espiral
Que me circunda e onde sem querer me reconstruo!
Livrar-me de todo olhar que, quando espreita, sofre
O grande desconforto de ver além dos outros.
Tenho tido esse olhar. E uma treva de dor
Perpetuamente.
Do êxodo dos pássaros, do mais triste dos cães,
De uns rios pequenos morrendo sobre um leito exausto.
Livrar-me de mim mesma. E que para mim construam
Aquelas delicadezas, umas rendas, uma casa de seda
Para meus olhos duros.

- Hilda Hilst -

sábado, 21 de março de 2009

Clarice...

É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de dizer porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo.

- Clarice Lispector -

La Ronda - Marta Gomez

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Cadernos Etíopes e a estética do olhar vazio

Minha querida amiga Dôra – um ser cheio de sensibilidade, artes e afins – compartilhou comigo há alguns dias uma preciosidade, que eu gostaria de dividir aqui no Mistureba. Ela me enviou o PDF de uma resenha crítica do livro Cadernos Etíopes, de JR Duran - famoso fotógrafo da Revista Playboy, conhecido por seus trabalhos com nus, retratos e moda, que agora parece ter se “aventurado” por outras savanas. O livro, publicado em setembro do ano passado pela Cosac & Naify, registra a passagem (meteórica) de Duran pela Etiópia e parece pretender mesclar fotografia, literatura e etnografia ao fazer alusão à escrita etnográfica e aos diários de campo.

Giorgia Quintas*, autora da resenha, ao deter-se sensivelmente sobre o livro, lança um verdadeiro facho de luz sobre as imagens capturadas por JR Duran. Clareando nossa compreensão sobre o quão denso e profundo é (ou poderia ser) o ato de fazer retratos de outrem - ainda mais quando “outrem” é de outra cultura - ela nos mostra que o que as lentes duranianas põem a nú não são os corpos etíopes, e sim o forte etnocentrismo e a ausência de esforço em praticar alteridade que permeiam o olhar do fotógrafo. A potencialização da sensualidade dos corpos - marca típica da trajetória profissional de Duran – ao ser dirigida às savanas africanas, numa imersão de apenas três semanas, tem como resultado uma estetização do olhar vazio, onde não há verdadeiro encontro, nem confronto de identidades entre fotógrafo e fotografado. Duran é o estrangeiro que não sai de si, que não se deixa impregnar pelo outro e que apenas repete o seu modo ver aqui e acolá. Não há uma verdadeira troca de olhares, quiçá de perspectivas. A beleza sensível da imagem fotográfica, diz Giorgia, "não se restringe à perfeição ou sensualidade de quem se apresenta no registro, mas sim a como se 'processa' o encontro desta captura: a maneira, a aproximação, a emoção canalizada neste tempo (que, este sim, é essencial ao ato fotográfico) e espaço."

A resenha de Giorgia é cortante, mas necessária. E pode ser lida na integra aqui

* Giorgia Quintas e Doutora em Antropologia pela Universidade de Salamanca (Espanha), mestre em Antropologia pela Universidade Federal de Pernambuco e pós-graduada em História da Arte pela Fundação Armando Álvares Penteado - FAAP/SP. Atualmente, leciona no Bacharelado de Fotografia da Faculdades Integradas Barros Melo - Aeso (Olinda) e é pesquisadora do Núcleo de Imagem & Som em Ciências Humanas do Programa de Pós-graduação em Antropologia (UFPE)

sábado, 31 de janeiro de 2009

As tribos do Omo

O vale inferior do Rio Omo, situa-se a 800 Km de Adis Abeba e abriga varias tribos africanas, tais como os Karo, os Mursi, Os Hamer, os Bume, os Konso, os Olmorate... Ali, nos confins da Etiópia, Hans Sylvester* fotografou durante seis anos homens mulheres e crianças que são gênios de uma arte ancestral. Eles tem o gênio da pintura e seus corpos de dois metros de altura sao como uma imensa tela.

A região vulcânica fornece uma imensa paleta de pigmentos coloridos: ocre vermelho, caulim branco, verde revestido, amarelo luminoso e cinzento. A forca de sua arte esta em três palavras: os dedos, a velocidade e a liberdade.

Desenham com as mãos abertas, com a extremidade das unhas, as vezes com pedaços de madeira e cobrem-se de colmo - um caule esmagado. Mergulham os dedos na argila e em poucos minutos decoram o peito, os seios, a púbis, as pernas, o rosto. Gestos vivos, rápidos, espontâneos, semelhantes ao movimento essencial que procuram os grandes mestres da pintura ocidental, tais como Miro, Klee, Picasso, Pollock, Tapies...

O desejo de decorar-se, embelezar, seduzir é um jogo e um prazer permanente.

* O livro de Hans Sylvester, que reúne essa coleção espantosa de fotografias dessas tribos do Omo, chama-se "Natural Fashon: Tribal decoration from Africa".













Fotos: Hans Sylvester
Um verdadeiro assombro, nao?

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Hilda...

Se te pareço noturna e imperfeita
Olha-me de novo. Porque esta noite
Olhei a mim, como se tu me olhasses.
E era como se a água
Desejasse

Escapar da sua casa que é o rio
E deslisando apenas, nem tocar a margem.

Te olhei. E há tanto tempo
Entendo que sou terra. Há tanto tempo
Espero
Que o teu corpo de água, mais fraterno
se estenda sobre o meu
Pastor e nauta

Olha-me de novo. Com menos altivez
E mais atento.

- Hilda Hilst -

domingo, 25 de janeiro de 2009

Gigi Shibabaw - Washintu


Gigi é uma cantora etíope, radicada em NY. Adorei-a.
Essa canção é um lamento e uma reflexão sobre as pessoas que morrem na guerra. Na cultura etíope, só os homens podem lamentar a guerra. Por isso Gigi é vista como uma mulher transgressora.

http://www.myspace.com/gigishibabaw
http://worldmusic.nationalgeographic.com/worldmusic/view/page.basic/artist/content.artist/gigi_shibabaw_6910

Férias em Floripa III

Foto: Helô Souza

Férias em Floripa II


Foto: Helô Souza

Férias em Floripa I


Foto: Helô Souza

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Em suas maiores viagens, o homem não sai do lugar.
Ele é o lugar.

Texto: Marcio Reiff
Foto: Helô Souza

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Elisa Lucinda




Mãe eu tô com fome
eu dizia eu gritava eu mugia
minha vó zangada respondia
você não está morrendo e nem tem fome
Você tem é apetite
Você sabe que vai comer, aonde comer, o quê vai comer.
Fome não! A fome, minha neta,
a fome, meu irmão,
a fome, minha criança,
é um apetite sem esperança.
Quando há certeza de cereais, toalhas americanas,
guardanapos e alegrias da coca-colândia
não há fome de verdade.
Minha vó já dizia pra mim um futuro de Brasil.
Minha vó nem viu edifício crescer no lugar de pão
no lugar de trigo
nem viu criança com infância de semáforo
vendendo mariola barata, criança que mata
porque seu quintal tá sempre no vermelho
criança cujo ralado de joelho
dói menos do que o não morar, não existir, não contar
com a fome tenaz
Não há tenaz na escola
há só a cola de cheirar a dor doída
de um monstro estômago a roncar
um animal doído dentro do corpo a uivar
todo dia, sem boa vista, sem quinta zoológica onde morar
Com a fome das crianças brasileiras
forra-se a mesa, arma-se o banquete
dos que sempre tiveram apenas apetite.
A faminta criança foi apenas o álibi, o cardápio, o convite.
Desmamada ela cresce procurando o peito da pátria amada
uma banana, uma manga, uma feijoada
e a mãe pátria diz nada.
Tem ela apenas o horror, o descalor, a calçada
um ódio a todos os tênis dos meninos nutridos
um ódio a mochilas, a saudáveis barrigas
com contínuo furor de assaltar os relógios
um deter o tempo que é o seu verdadeiro balão
um cai-cai balão que só cai à mão armada.
A fome gera a cilada de uma pátria de não irmãos.
A gente podia ter gripe, asma, catapora, bronquite
A gente podia ter apetite mas fome não.
Minha vó bem que dizia sem errança:
fome é um apetite sem esperança.


(Escrito especialmente para a Campanha Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida/ Betinho / 93. Encenado pela Cia. Teatral do Movimento sob a direção de Ana Kfouri

sábado, 9 de agosto de 2008

Mercedes Sosa



"Duerme Negrito" na voz de Mercedes Sosa. Linda! Porque hoje é aniversário de mama e papa... Sim, simultaneamente! = )

domingo, 3 de agosto de 2008

Joyce



Feminina

- Ô mãe, me explica, me ensina, me diz o que é feminina?
- Não é no cabelo, no dengo ou no olhar, é ser menina por todo lugar.
- Então me ilumina, me diz como é que termina?
- Termina na hora de recomeçar, dobra uma esquina no mesmo lugar.

Costura o fio da vida só pra poder cortar
Depois se larga no mundo pra nunca mais voltar

- Ô mãe, me explica, me ensina, me diz o que é feminina?
- Não é no cabelo, no dengo ou no olhar, é ser menina por todo lugar.
- Então me ilumina, me diz como é que termina?
- Termina na hora de recomeçar, dobra uma esquina no mesmo lugar.

Prepara e bota na mesa com todo o paladar
Depois, acende outro fogo, deixa tudo queimar

- Ô mãe, me explica, me ensina, me diz o que é feminina?
- Não é no cabelo, no dengo ou no olhar, é ser menina por todo lugar.
- Então me ilumina, me diz como é que termina?
- Termina na hora de recomeçar, dobra uma esquina no mesmo lugar.

E esse mistério estará sempre lá
Feminina menina no mesmo lugar