quarta-feira, 13 de agosto de 2008
terça-feira, 12 de agosto de 2008
Elisa Lucinda
eu dizia eu gritava eu mugia
minha vó zangada respondia
você não está morrendo e nem tem fome
Você tem é apetite
Você sabe que vai comer, aonde comer, o quê vai comer.
Fome não! A fome, minha neta,
a fome, meu irmão,
a fome, minha criança,
é um apetite sem esperança.
Quando há certeza de cereais, toalhas americanas,
guardanapos e alegrias da coca-colândia
não há fome de verdade.
Minha vó já dizia pra mim um futuro de Brasil.
Minha vó nem viu edifício crescer no lugar de pão
no lugar de trigo
nem viu criança com infância de semáforo
vendendo mariola barata, criança que mata
porque seu quintal tá sempre no vermelho
criança cujo ralado de joelho
dói menos do que o não morar, não existir, não contar
com a fome tenaz
Não há tenaz na escola
há só a cola de cheirar a dor doída
de um monstro estômago a roncar
um animal doído dentro do corpo a uivar
todo dia, sem boa vista, sem quinta zoológica onde morar
Com a fome das crianças brasileiras
forra-se a mesa, arma-se o banquete
dos que sempre tiveram apenas apetite.
A faminta criança foi apenas o álibi, o cardápio, o convite.
Desmamada ela cresce procurando o peito da pátria amada
uma banana, uma manga, uma feijoada
e a mãe pátria diz nada.
Tem ela apenas o horror, o descalor, a calçada
um ódio a todos os tênis dos meninos nutridos
um ódio a mochilas, a saudáveis barrigas
com contínuo furor de assaltar os relógios
um deter o tempo que é o seu verdadeiro balão
um cai-cai balão que só cai à mão armada.
A fome gera a cilada de uma pátria de não irmãos.
A gente podia ter gripe, asma, catapora, bronquite
A gente podia ter apetite mas fome não.
Minha vó bem que dizia sem errança:
fome é um apetite sem esperança.
(Escrito especialmente para a Campanha Ação da Cidadania Contra a Miséria e Pela Vida/ Betinho / 93. Encenado pela Cia. Teatral do Movimento sob a direção de Ana Kfouri
sábado, 9 de agosto de 2008
Mercedes Sosa
"Duerme Negrito" na voz de Mercedes Sosa. Linda! Porque hoje é aniversário de mama e papa... Sim, simultaneamente! = )
domingo, 3 de agosto de 2008
Joyce
Feminina
- Ô mãe, me explica, me ensina, me diz o que é feminina?
- Não é no cabelo, no dengo ou no olhar, é ser menina por todo lugar.
- Então me ilumina, me diz como é que termina?
- Termina na hora de recomeçar, dobra uma esquina no mesmo lugar.
Costura o fio da vida só pra poder cortar
Depois se larga no mundo pra nunca mais voltar
- Ô mãe, me explica, me ensina, me diz o que é feminina?
- Não é no cabelo, no dengo ou no olhar, é ser menina por todo lugar.
- Então me ilumina, me diz como é que termina?
- Termina na hora de recomeçar, dobra uma esquina no mesmo lugar.
Prepara e bota na mesa com todo o paladar
Depois, acende outro fogo, deixa tudo queimar
- Ô mãe, me explica, me ensina, me diz o que é feminina?
- Não é no cabelo, no dengo ou no olhar, é ser menina por todo lugar.
- Então me ilumina, me diz como é que termina?
- Termina na hora de recomeçar, dobra uma esquina no mesmo lugar.
E esse mistério estará sempre lá
Feminina menina no mesmo lugar
quarta-feira, 30 de julho de 2008
Maria Eugênia
Ela se virou de lado
E tentou até sorrir
Mas logo raiou o dia
E a cidade em cantoria
Não deixou ela dormir..."
sexta-feira, 25 de julho de 2008
quinta-feira, 24 de julho de 2008
terça-feira, 22 de julho de 2008
domingo, 13 de julho de 2008
Ana Cañas
sábado, 12 de julho de 2008
Leila Miccolis
Conservas
"No meio das noites, a noite
em que se fantasia cometer loucuras:
a tia tenta o suicídio,
o primo foge de casa,
a irmã se prostitui,
a cunhada sai pela rua, nua,
o menor incestua...
Uma noite singular,
uma noite sem par,
uma noite só.
Depois, arrependidos, todos voltam
a viver dos conselhos da vovó."
quinta-feira, 10 de julho de 2008
Hipersensivel
Às vezes a melodia de uma voz me interessa, mais que a conversa toda. Poucas coisas me interessam verdadeiramente nas pessoas e a maioria delas são pedaços de pessoas, de coisas, de animais, plantas... como fluxos sempre parciais de intensidade que ressoam em mim. Parece que preciso atrofiar alguns sentidos para viver nesse mundo. Se não é loucura, é overdose.
O mundo me inunda. Tenho até medo de enchente! Se mistura com minhas águas interiores.... E cria redemoinhos internos, cachoeiras, lagos e pequenas poças que refletem paisagens, algumas antigas, já cansadas, e outras por vir, desconhecidas, algumas promissoras, outras não... Tem vezes que a água do mundo congela minhas águas internas e então eu sinto muito frio. Outras vezes a água do mundo explode em gêiseres dentro de mim, me põe em ebulição, a ferver...
A questão é que sempre fui muito sensível mesmo. Hipersensível.

